Frutas, legumes, verduras, carnes devem se tornar mais caros do que embutidos, doces e outras guloseimas a partir de 2026.

Conforme o Guia Alimentar para a População Brasileira, documento do Ministério da Saúde, os alimentos são divididos em quatro grupos: 1. In natura e/ou minimamente processados (como arroz, feijão, carne, frutas, verduras); 2. Os ingredientes culinários (como sal, açúcar e óleos usados para cozinhar); 3. Processados (como pães, massas, enlatados, geleias); 4. Ultraprocessados (como salsichas, salgadinhos, macarrões instantâneos e outras guloseimas, conhecido também como alimentos “porcaria”).

Foi através desse documento que os pesquisadores utilizaram para dividir a comida entre saudável e não saudável. Além disso, eles se fundamentaram através de evidências científicas que associam o consumo dos alimentos ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como o câncer, diabete, hipertensão.

alimentos saudáveis
Piramide alimentar (Fonte: divulgação)

A constatação do aumento de preços dos alimentos saudáveis se deu através de uma pesquisa de um grupo de 6 brasileiros que utilizou a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) e o Sistema Nacional de IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) para verificar quais os tipos de alimentos mais consumidos pelos brasileiros e o custo médio de cada um deles.

Dessa forma, o grupo mediu e comparou os preços de 102 alimentos mais consumidos no país durante 22 anos, de 1995 a 2017 e fizeram uma simulação dos preços dos mesmos itens alimentares até 2030, encontrando um ponto de inversão, no qual a comida saudável se torna mais cara do que a comida não saudável, conhecida, também, como “porcaria”.

Em 2017, os alimentos saudáveis tinham o preço médio de R$ 4,69 por quilograma e, por sua vez, os não saudáveis R$ 6,62 por quilograma. Em 2026, a pesquisa prevê que os custos de ambos se tornarão iguais. Já em 2030, a comida saudável teria um valor de R$ 5,24 por quilo, enquanto a comida ultraprocessada teria o custo de R$ 4,34 por quilo.

gráfico preço
Gráfico do estudo que mostra a evolução dos preços dos alimentos e estimativas até 2030 (Fonte: Estudo “What to expect from the price of healthy and unhealthy foods over time? The case from Brazil”, da Public Health Nutrition)

Por exemplo, a carne, segundo o estudo, tornou-se mais caro em relação à salsicha. No período de 1995 a 2002, o embutido tinha um preço médio de R$ 10,30 já a carne de R$ 9,08. Entre 2003 a 2010, o valor do quilo dos dois alimentos se aproximaram, tendo uma diferença de apenas R$ 0,53. A pesquisa mostra que no período seguinte, 2004 a 2011, a salsicha passou a custar R$ 11,33 e a carne R$ 13,10 por quilo.

O estudo, fruto do doutorado de Emanuella Gomes Maia sob orientação do cientista Rafael Claro, no qual dividem a co-autoria com Camila Passos e outras três pesquisadores, foi publicado em inglês em 19 de janeiro, na revista científica Public Health Nutrition da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, com o seguinte título: “What to expect from the price of healthy and unhealthy foods over time? The case from Brazil” (“O que esperar do preço das comidas saudáveis e não-saudáveis com o tempo? O caso do Brasil”, em tradução livre).

Os pesquisadores se preocupam com a ausência de políticas públicas e com o aumento dos preços dos alimentos saudáveis, visto que o preço é um fator importante na decisão de compras, podendo estimular o consumo das comidas ditas como “porcaria”.

“A expansão das grandes redes de supermercado e da indústria tem colaborado para o acesso das pessoas aos ultraprocessados. A ausência de políticas públicas, também, permite o acesso sem qualquer tipo de regulação. São alimentos práticos, e no cotidiano as pessoas evitam gastar tempo na cozinha”

Além disso, o consumo excessivo de comidas ultraprocessadas acarreta doenças crônicas como hipertensão, diabetes, câncer. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se, que em 2016, 71% das mortes mundiais foram decorrente de doenças crônicas.

Os pesquisadores afirmam que preços acessíveis para alimentos saudáveis podem contribuir para a saúde pública. “O custo da comida deveria encorajar o consumo de alimentos saudáveis, in natura e/ou minimamente processados, e desencorajar o consumo de alimentos não-saudáveis ultraprocessados.”

Emanuella afirma que, ao lado dos outros pesquisadores, vai continuar monitorando os preços, com o objetivo de ajudar a formular políticas públicas que possam reverter essa tendência.